IN LOCO
IV
A noite já caira e as luzes ofuscavam a mente e a visão dele. Checou seus pulsos e seus reflexos diversas vezes, algo tinha que explicar o que havia visto. Talvez fosse algum doente mental, como todos diziam. Afastou esses pensamentos que acabariam induzindo-o à loucura de verdade. Sentou-se no meio fio da rua de ladrilhos, e da sua mochila tirou uma blusa. Trocou sua camisa ali mesmo e depois de olhar para os dois lados, levantou-se e resolveu que iria encontrar-se com seus amigos como havia combinado mais cedo, naquele mesmo dia sinistro.
Rapidamente convenceu-se de que nada daquilo acontecera de fato, ou pelo menos acreditou por alguns momentos de que não era real. Mas os olhos que viu... Ele não podia simplesmente esquecê-los, eles eram, como poderia explicar o que eram? Ele apenas sentiu. Seguia distraído rua acima, nada de lua no céu essa noite, nada mais de sustos. Não seria curioso se neste instante em que se via completamente recuperado a rua vazia surgisse em seu caminho? Apenas para que ele pudesse olhar os tais olhos sombrios com mais cuidado e menos pavor. Apenas para vê-los... Sacudiu seu rosto fazendo seu cabelos balançarem desgrenhados. Olhou para cima e viu as primeiras nuvens do que seria uma tempestade, pôs o capuz sobre a cabeça e continua com seu olhar vidrado no chão, nos seus tênis sujos. Talvez devesse ir pra casa, o que o impedia? Nem ao menos se lembrava quando havia sido a ultima vez que estivera em casa. E distraido em sua saudade orgulhosa ele levantou o rosto e no fim daquela rua vazia a casa que tanto temia olhava para ele e em seus olhos verdes tristes e suplicantes, a chuva começava a cair gota por gota, e aos poucos a chuva era tudo que se ouvia e a casa era a unica coisa que via.Hipnotizado foi em sua direção, ignorando a água e a noite que já engulira sua sombra, agora que nem mais havia postes. Mas a lua brotava pequena, surgindo resistente por trás da casa. Mas a pouca luz que emitia começava a iluminar piedosamente sua curiosidade, revelando o que mais de belo aqueles olhos podia ser, uma mulher. Tão estranhamente só no interior de uma casa sem porta e de janela gradeada. Uma mulher tão inocente quanto a finura de sua pele clara. E ele com sua juventude calejada. A chuva não havia parado, caia pesada. E seus passos se tornavam mais firmes, agora que a noite iluminara seu medo. Com uma das mãos em volta do gradeado e outra deixando que sua mochila escorresse de seu ombro para o chão e tirando seu capuz, disse em tom baixo e incerto, cauteloso:
- Isso é real? Ou andei fumando...
Continua...
Nenhum comentário:
Postar um comentário