quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Contos de Fadas

IN LOCO
VII


Aiyra esperou pela resposta de Kaique. Porém esse se calou por um longo momento, e quando resolveu falar não disse o que Aiyra queria ouvir. Ele não a libertaria.

-Não posso. Não posso acreditar...- Ele disse.


Ela ia argumentar, mas quando abriu a boca para falar ele desapareceu. Sumiu sem deixar rastros, quase como se nunca tivesse estado ali.
O que estava acontecendo?
Aiyra procurou ver por entre as grades a floresta em busca de alguma pista do rapaz, mas não viu nada.
Virou-se então para a grande mesa  repleta de comida. Seus estomago reclamou. Vendo que não veria mais Kaique caminhou até a cadeira e sentou-se, começando a se servir. Tudo estava quente e delicioso. Por que? A comida devia já estar fria devido ao tempo em que passou ali abandonada. Ignorou esse pensamento. Enquanto comia pensou no rapaz. Ele existia? Ou fora tudo fruto de sua imaginação fértil.



Satisfeita com a refeição olhou novamente para o quadro. Esse oscilava entre a velha e a moça. Aquele seria seu destino, Aiyra sabia disso, era algo obvio. Uma lágrima deslizou solitária pelo seu rosto. O que havia feito para merecer tal sentença? E como sobreviveria naquela casa sozinha? E quando a comida acabasse?

Olhou para a mesa e tomou um susto, não acreditando no que via.  O objeto que antes estava cheio de pratos sujos com restos de comida que Aiyra deixara, agora estava limpo e repleto de novos alimentos frescos.

Olhou ao redor. Descobriu que suas necessidades básicas  sumiam após serem saciadas como por magia.
Sua cama se arrumava.
Sua bacia se limpava.
Sua comida reaparecia.
E seu enorme armário estava sempre cheio de roupas.
Havia ainda outro armário que sempre tinha qualquer coisa que ela necessitasse.
 
Então era isso. Não iria morrer por falta de nada, ficaria ali presa para sempre.

Caiu na cama de braços abertos e adormeceu.Sonhou com olhos negros e com uma grade se quebrando.


Continua...

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Contos de Fadas



IN LOCO

VI

Kaique parou, não podia deixar de observar que sua esquizofrenia estava pedindo para que ele a libertasse. Em nenhum momento deixou de olha-la nos olhos, aqueles olhos... Não havia como ele imagina-los, deveriam ser reais, tinham que ser. Mas não respondeu nada. Forçou-se a piscar, tentando limpar sua visão.

- Não posso. - Disse por fim. - Não posso, não acredito...- Engoliu em seco e se calou novamente. Desviando seu olhar do dela, encarou o chão. Silêncio. A lua já havia caminhando parte de seu caminho e a luz não mais iluminava a garota, mas seus olhos ainda se viam, grandes e sós. Mas ele perdera a coragem para olha-los, estava com vergonha, de si mesmo. Mas não entendia o porquê. Silêncio. Ele pensava que devia ajuda-la, mas é claro, pensou ele, se eu ajudo minha alucinação a sair provavelmente deixarei de vê-la, sim, claro! Começava a ergue-se para voltar a olha-la, mas não tinha certeza se valia a pena liberta-la, se fosse implicar que ela sumisse... Silêncio. Ele não queria deixar de vê-la, tampouco queria conversar com algum truque sacana de seu cérebro sequelado. Ou pior, se apaixonar por esse truque. Silêncio.

Na rua um vento frio, calmo e ainda assim, forte, roçava seus tênis sujos, zumbindo em seu ouvido o primeiro som em algum tempo. Levantou o rosto, mas nada de lua, nada de rua, nada de casa, nada de nada. O que quer que tenha sido foi embora.

Kaique então se arrependeu de não olha-la. Sua bolsa estava aos seus pés, no meio da rua que seguia horas atrás. Mas para onde iria não importava mais, o que importava era que queria voltar. E voltaria, assim que o dia lhe desse a chance. Até lá beberia, sem voltar para casa. Sua casa agora era numa rua sem saída.


Continua...

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Conto de Fadas

IN LOCO

V  


Alguma coisa a fez despertar. Um barulho talvez? Levantou-se devagar. Estava ainda bastante sonolenta. Olhou para a janela. A floresta estava escura, porém cheia de neve fresca. Ao longe pode ver um vulto. Era um homem, seria o garoto que vira mais cedo? Aproximou-se da janela e lá viu tudo com mais nitidez. Era um garoto sim, mas de resto nada parecia certo. Ele usava uma calça esquisita, de um material que jamais conhecera, em sua camisa haviam palavras estranhas e era também feita de um tecido diferente, não se adequava bem  ao ambiente, as arvores densas e sombrias, o garoto parecia vim de outro lugar, um lugar onde ela jamais esteve.
Aiyra decidiu que ele era fascinante.
 Foi para junto da  janela e observou cautelosamente. Era o mesmo garoto. Os olhos pretos a fitavam curiosos. "É bonito" pensou Aiyra. Os longos cabelos do rapaz chamavam a atenção dela com a mesma intensidade que seus olhos escuros. E a boca...

- Isso é real? Ou andei fumando...

Aiyra tomou um susto quando ouviu aquela voz. Grossa e decidida.

-Não sei. O senhor não parece-me real. -Respondeu ao rapaz.

Um silêncio que pareceu durar horas se estendeu entre os dois.

- Ta falando comigo? Ele perguntou quebrando o silêncio.

- De forma alguma senhor.

Ele falava engraçado. Aiyra riu.

- Senhor? Porque me chama assim?- 

-Não sei senhor, só quis ser educada.

-Pode cortar a ladainha, não precisa me tratar assim.

-Desculpe-me se lhe ofendi de alguma forma...- Aiyra se afastou da janela assustada.

- Não se afaste! Não vou fazer nada.

-Sim, senhor?

- Ok então, devo parecer velho, você continua me chamando assim... Quantos anos acha que eu tenho? Vá, chute! - Parecia tentar descontrai a conversa, porém com certa dificuldade.

-Chutar?- O que isso queria dizer?

- Sim, adivinhe. Quantos anos?- Ele parecia estar impaciente.

-Por volta dos 18?- Ela tentou. Essa também não era sua própria idade?

-Quase! Tenho 19. E você?

-Possuo 18.

-Eu achei que "possuísse". - Ele riu com a palavra que nunca tinha usado .- Você não é daqui não é? Me diz de onde veio? Porque está presa ai? E essas roupas? Veio de alguma festa a fantasia?

Aiyra olhou para seu vestido longo e vermelho. O espartilho estava muito apertado mas tirando isso nada parecia diferente.

- Sou daqui sim. O senhor é que não parece ser daqui. Suas roupas são muito diferentes, as minhas são mais normais! E com todo respeito, o senhor possui um jeito de falar muito engraçado. E não faço ideia de como cheguei aqui dentro.- Ela aproximou-se mais ainda da janela para o ver melhor.

- Definitivamente alguém deve ter batizado minha bebida...

Aiyta não entendia aquele rapaz, mas o achou simpático. Também, ela não via ninguém a muito tempo.
Espera. Por que pensara assim? Não despertara apenas ontem? Por que haveria de achar que estava presa a muito tempo? Queria se lembrar de algo, mas as lembranças fugiam dela assim com o rato foge do gato.

-Ei, já que estou ficando louco mesmo, me diz qual é o seu nome?

 Aiyra pensou se deveria dar seu nome ao estranho. Não gostava de falar sobre si às pessoas que não conhecia, mas ele era a unica alma viva que ela via no bosque tirando a vegetação, talvez... talvez ele pudesse ajudar.

-Aiyra.- Disse nervosa- Meu nome é Aiyra.

-O meu é Kaique. Muito prazer Aiyra.

Os dois entraram em uma conversa que parecia não ter fim. Aiyra perguntava-se se aquele homem não era uma ilusão. Era provável,  afinal talvez ela estivesse louca. Não conseguia lembrar de nada do seu passado além de seu nome. Talvez estivesse alucinando tudo aquilo por causa da solidão.

Kaique perguntou a ela o porque de estar presa numa casa sem portas, e Aiyra contou-lhe de todos os fatos desde que acordara. Omitiu no entanto o quanto estava fascinada pelos olhos escuros do rapaz.
No final da conversa Aiyra tomou forças para fazer a pergunta que queria fazer a ele desde que avistou seu vulto:

-Agora que já sabe o meu nome e a minha história- O coração e Aiyra pulava- Será que pode ajudar-me a sair?

E enquanto esperava a resposta a sua pergunta ela fitou a lua cheia por trás das várias arvores do bosque, que parecia rir dela com uma piada que Aiyra não compreendia.


Continua...

Contos de Fadas


IN LOCO

IV

A noite já caira e as luzes ofuscavam a mente e a visão dele. Checou seus pulsos e seus reflexos diversas vezes, algo tinha que explicar o que havia visto. Talvez fosse algum doente mental, como todos diziam. Afastou esses pensamentos que acabariam induzindo-o à loucura de verdade. Sentou-se no meio fio da rua de ladrilhos, e da sua mochila tirou uma blusa. Trocou sua camisa ali mesmo e depois de olhar para os dois lados, levantou-se e resolveu que iria encontrar-se com seus amigos como havia combinado mais cedo, naquele mesmo dia sinistro.
   Rapidamente convenceu-se de que nada daquilo acontecera de fato, ou pelo menos acreditou por alguns momentos de que não era real. Mas os olhos que viu... Ele não podia simplesmente esquecê-los, eles eram, como poderia explicar o que eram? Ele apenas sentiu. Seguia distraído rua acima, nada de lua no céu essa noite, nada mais de sustos. Não seria curioso se neste instante em que se via completamente recuperado a rua vazia surgisse em seu caminho? Apenas para que ele pudesse olhar os tais olhos sombrios com mais cuidado e menos pavor. Apenas para vê-los... Sacudiu seu rosto fazendo seu cabelos balançarem desgrenhados. Olhou para cima e viu as primeiras nuvens do que seria uma tempestade, pôs o capuz sobre a cabeça e continua com seu olhar vidrado no chão, nos seus tênis sujos. Talvez devesse ir pra casa, o que o impedia? Nem ao menos se lembrava quando havia sido a ultima vez que estivera em casa. E distraido em sua saudade orgulhosa ele levantou o rosto e no fim daquela rua vazia a casa que tanto temia olhava para ele e em seus olhos verdes tristes e suplicantes, a chuva começava a cair gota por gota, e aos poucos a chuva era tudo que se ouvia e a casa era a unica coisa que via.

 Hipnotizado foi em sua direção, ignorando a água e a noite que já engulira sua sombra, agora que nem mais havia postes. Mas a lua brotava pequena, surgindo resistente por trás da casa. Mas a pouca luz que emitia começava a iluminar piedosamente sua curiosidade, revelando o que mais de belo aqueles olhos podia ser, uma mulher. Tão estranhamente só no interior de uma casa sem porta e de janela gradeada. Uma mulher tão inocente quanto a finura de sua pele clara. E ele com sua juventude calejada. A chuva não havia parado, caia pesada. E seus passos se tornavam mais firmes, agora que a noite iluminara seu medo. Com uma das mãos em volta do gradeado e outra deixando que sua mochila escorresse de seu ombro para o chão e tirando seu capuz, disse em tom baixo e incerto, cauteloso:

- Isso é real? Ou andei fumando...



Continua...

Conto de Fadas


IN LOCO

III

Estava assustada com o retrato. O que aquilo queria dizer? É certo que estava presa, mas será que aquele retrato estava ali para informa-la sobre algo? Será que ficaria presa naquela casa até o fim dos seus dias? 
Cambaleou para trás meio tonta. Por algum motivo, que não identificou na hora (e  nem jamais iria indentificar), virou para a janela com grades.
Alguém tentava espiar o que tinha na casa. Aiyra resolveu aproximar-se do parapeito cautelosamente. Era noite, não conseguia ver direito o garoto que espiava, porém conseguiu ver seus olhos. Olhos escuros. Fascinantes. Até mesmo... Vivos!
Pensou em falar com ele, mas antes que pudesse dar sequer mais um passo, o garoto pulou para trás assustado e correu para longe enquanto Aiyra começava a sussurrar um "quem é você?"

Foi até o sofá. Olhou para as próprias mãos e para a janela, nevava no bosque, a noite estava gelada e suas mãos congelavam. Ela toda congelava. Estava sozinha, não lembrava de nada, estava presa e a única forma de vida que viu fugiu sem deixa-la ver mais do que seus olhos.
Olhos perfeitos.
Deixou que uma lágrima caisse silênciosa pelo seu rosto. Estava sendo punida por algo? Como fora parar ali?
"Que saudade de casa" pensou. Contudo ela em algum momento tivera uma casa?
"Tantas perguntas..."
"Tantas perguntas..."
Sozinha Aiyra caiu no sofá enconlhendo-se, mantendo o pouco do calor conservado no corpo e adormeceu profundamente enquanto uma brisa fria invadia a casa através das grades, que por mais que a aprisionassem não detinha o vento e a neve que caia no bosque silêncioso.


Continua...

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Contos de Fadas


IN LOCO

II

Ele parava sempre para observar a sensação que sentia ao passar por aquela casa no fim de uma rua sem saída  e sem mais nada. Todos os dias passava por ali, as vezes tinha a impressão de ser o único a saber da existência do local mal assombrado. Era assim que a via, mal assombrada. Por vezes teve a impressão de que a casa respirava, tremula e latejante. Como a chama de uma vela que segue a respiração de um inquilino asmático  Seguiu em frente, como sempre fazia depois de seus minutos de contemplação no inicio do beco. Pensou que talvez hoje devesse arriscar um pouco a vida inútil que tinha e se aproximar mais. 
 Deu um meio passo. Mas hesitou. Como quem nunca houvesse sequer pensado em fazer um caminho diferente, seguiu seu rumo em direção ao sol de final de tarde. Em direção a sua casa. Parou, pois se lembrou de que sua vontade de ir pra casa não superava em nada a vontade de ousar e se aproximar do final daquela rua sem saída. Deu meia volta, cheio de coragem e com a mochila pendurada em um dos ombros, se direcionou com o olhar atento a janela, pois mesmo depois de tanto olhar para a mesma casa, nunca havia se dado conta de que não havia porta. Apenas um esboço, de onde deveria ser.

Largou sua mochila descuidadamente no chão  e levou o rosto com cuidado para perto da janela, onde procurou ver o que la dentro se escondia. Mas as grades o impediram de poder ver melhor. Grades, pensou ele, porque haveria grades numa casa sem porta? Tentou diferentes ângulos e alturas, mas nada parecia ajuda-lo a ver alem do que já havia visto, ou seja, nada. Então reparou numa luz, aquela que parecia respirar como uma vela. Tirou seus cabelos de seus olhos, e apertou a vista para tentar enxergar, com medo e sem se dar conta, Kaique grudou seu rosto na grade e deixou que sua respiração acompanhasse o ritmo da casa por uns instantes. Ate que se desse conta dos grandes olhos verdes que o encaravam de dentro do recinto mal iluminado. No susto se jogou para tras, caindo a uma certa distancia da janela, seu coração saltava em plena adrenalina. Sem mais olhar diretamente para a casa, ele agarrou sua mochila e saiu.


Continua...

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Conto de Fadas


IN LOCO

I

Havia apenas dois motivos para que ela não saísse da casa:
Numero um- Não havia porta.
Numero dois- A janela  tinha grades.

Onde estava afinal? Parecia uma sala... Era confortável ali, de um modo desconfortável. Isso tinha sentido? Se não, que se dane. Nada estava fazendo sentido mesmo. Tentou se lembrar de alguns fatos recentes. Recordou-se de ter estado em um bosque. Sim! Era isso. Ela estivera  em um bosque. Sim, Sim  era um bosque. Mas o que fazia ali? Uma dor de cabeça começou a latejar.
Fechou os olhos.
Qual era seu nome mesmo? Ah sim: Aiyra.
E por que possuía esse nome?
A dor de cabeça piorou gradativamente. Olhou ao redor. Estava em uma sala redonda, sem porta, com tapeçarias penduradas nas paredes e quadros deprimentes. Também haviam dois sofás vermelhos,  uma mesa no centro, e comida. Muita comida na mesa.
A iluminação era precária, apenas uma vela acesa para todo o recinto. Aiyra levantou-se e tateando pelos cantos encontrou um armário de madeira,  continha dentro centenas de velas e alguma pedras para fazer fogo.
 Pegou algumas, ascendeu sem maiores dificuldades, e então olhou ao redor.
Em um lado mais escuro da sala havia um quadro. Aproximou-se para ver qual era a imagem.
Era o retrato de uma garota, com longos cabelos castanhos e olhos verdes perdidos, olhos tristes. Ela estava sentada tecendo um pano no meio da sala em que Aiyra se encontrava agora. A imagem de repente oscilou e os cabelos castanhos da menina ficaram brancos, assim como a pele enrugou, e os olhos esbranquiçaram. Porém não foi esse o motivo de Aiyra ter entrado em pânico. Não definitivamente não. O motivo do pavor era que a menina no quadro era muito conhecida por Aiyra, afinal era ela mesma.


Continua...