IN
LOCO
V

Alguma coisa a fez despertar. Um barulho talvez? Levantou-se devagar. Estava ainda bastante sonolenta. Olhou para a janela. A floresta estava escura, porém cheia de neve fresca. Ao longe pode ver um vulto. Era um homem, seria o garoto que vira mais cedo? Aproximou-se da janela e lá viu tudo com mais nitidez. Era um garoto sim, mas de resto nada parecia certo. Ele usava uma calça esquisita, de um material que jamais conhecera, em sua camisa haviam palavras estranhas e era também feita de um tecido diferente, não se adequava bem ao ambiente, as arvores densas e sombrias, o garoto parecia vim de outro lugar, um lugar onde ela jamais esteve.
Aiyra decidiu que ele era fascinante.
Foi para junto da janela e observou cautelosamente. Era o mesmo garoto. Os olhos pretos a fitavam curiosos. "É bonito" pensou Aiyra. Os longos cabelos do rapaz chamavam a atenção dela com a mesma intensidade que seus olhos escuros. E a boca...
- Isso é real? Ou andei fumando...
Aiyra tomou um susto quando ouviu aquela voz. Grossa e decidida.
-Não sei. O senhor não parece-me real. -Respondeu ao rapaz.
Um silêncio que pareceu durar horas se estendeu entre os dois.
- Ta falando comigo? Ele perguntou quebrando o silêncio.
- De forma alguma senhor.
Ele falava engraçado. Aiyra riu.
- Senhor? Porque me chama assim?-
-Não sei senhor, só quis ser educada.
-Pode cortar a ladainha, não precisa me tratar assim.
-Desculpe-me se lhe ofendi de alguma forma...- Aiyra se afastou da janela assustada.
- Não se afaste! Não vou fazer nada.
-Sim, senhor?
- Ok então, devo parecer velho, você continua me chamando assim... Quantos anos acha que eu tenho? Vá, chute! - Parecia tentar descontrai a conversa, porém com certa dificuldade.
-Chutar?- O que isso queria dizer?
- Sim, adivinhe. Quantos anos?- Ele parecia estar impaciente.
-Por volta dos 18?- Ela tentou. Essa também não era sua própria idade?
-Quase! Tenho 19. E você?
-Possuo 18.
-Eu achei que "possuísse". - Ele riu com a palavra que nunca tinha usado .-
Você não é daqui não é? Me diz de onde veio? Porque está presa ai? E essas roupas? Veio de alguma festa a fantasia?
Aiyra olhou para seu vestido longo e vermelho. O espartilho estava muito apertado mas tirando isso nada parecia diferente.
- Sou daqui sim. O senhor é que não parece ser daqui. Suas roupas são muito diferentes, as minhas são mais normais! E com todo respeito, o senhor possui um jeito de falar muito engraçado. E não faço ideia de como cheguei aqui dentro.- Ela aproximou-se mais ainda da janela para o ver melhor.
- Definitivamente alguém deve ter batizado minha bebida...
Aiyta não entendia aquele rapaz, mas o achou simpático. Também, ela não via ninguém a muito tempo.
Espera. Por que pensara assim? Não despertara apenas ontem? Por que haveria de achar que estava presa a muito tempo? Queria se lembrar de algo, mas as lembranças fugiam dela assim com o rato foge do gato.
-Ei, já que estou ficando louco mesmo, me diz qual é o seu nome?
Aiyra pensou se deveria dar seu nome ao estranho. Não gostava de falar sobre si às pessoas que não conhecia, mas ele era a unica alma viva que ela via no bosque tirando a vegetação, talvez... talvez ele pudesse ajudar.
-Aiyra.- Disse nervosa-
Meu nome é Aiyra.
-O meu é Kaique. Muito prazer Aiyra.
Os dois entraram em uma conversa que parecia não ter fim. Aiyra perguntava-se se aquele homem não era uma ilusão. Era provável, afinal talvez ela estivesse louca. Não conseguia lembrar de nada do seu passado além de seu nome. Talvez estivesse alucinando tudo aquilo por causa da solidão.
Kaique perguntou a ela o porque de estar presa numa casa sem portas, e Aiyra contou-lhe de todos os fatos desde que acordara. Omitiu no entanto o quanto estava fascinada pelos olhos escuros do rapaz.
No final da conversa Aiyra tomou forças para fazer a pergunta que queria fazer a ele desde que avistou seu vulto:
-Agora que já sabe o meu nome e a minha história- O coração e Aiyra pulava-
Será que pode ajudar-me a sair?
E enquanto esperava a resposta a sua pergunta ela fitou a lua cheia por trás das várias arvores do bosque, que parecia rir dela com uma piada que Aiyra não compreendia.
Continua...